quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

'Chefe' do MTST diz que discussão sobre candidatura a presidente 'avançou muito' e rejeita aliança com o PT


Imagem: Produção Ilustrativa / Política na Rede
Coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Guilherme Boulos admite a disposição de concorrer à Presidência pelo PSOL. Segundo Boulos, "avançou-se bastante nos debates junto ao PSOL para que se possa consolidar uma candidatura". A decisão será anunciada em março.



"Se esse entendimento confluir para uma candidatura, eu vou assumir", diz.

Aos 35 anos --idade mínima para registro de candidatura presidencial--, ele rechaça a hipótese de aliança com o PT. "Não está colocado."

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A eleição presidencial caminha para uma fragmentação inédita da esquerda, com candidatos de PT, PC do B, PDT e PSOL.

O prazo do PSOL para definição de sua candidatura é março. O sr. vai concorrer?
Guilherme Boulos - As discussões com o PSOL têm avançado e também as discussões internas do MTST. A posição que o PSOL tomou em defesa da democracia e contra a perseguição judicial a Lula ajudou no debate. Neste momento, estamos fazendo uma rodada de discussões na base do MTST em todo o país para chegar a uma definição final.

O sr. está disposto a concorrer?
Avançou-se bastante nos debates junto ao PSOL para consolidar uma candidatura. Não tomo definições como essa sozinho. O MTST tem instâncias e uma decisão importante como essa precisa passar por esses passos.

Concluído todo esse processo, o sr. estaria disposto?
​Se o entendimento do MTST for de que isso contribui para o movimento e para o projeto em que acreditamos, se esse entendimento se consolidar junto a outros movimentos com que temos relação muito próxima e também junto ao PSOL, dentro da perspectiva de construir um projeto de esquerda para Brasil, seguramente.

Seguramente, o quê?
Se esse entendimento confluir para uma candidatura, eu vou assumir.

Embora apoie atos pelo direito de Lula concorrer, o sr. não participa dos eventos que lançam a candidatura dele.
O MTST e a Frente Povo Sem Medo têm estado na linha de frente pelo direito de Lula ser candidato. Na esquerda, há espaço para unidade. Neste momento, toda esquerda e o campo progressivo têm que estar unidos contra a reforma da Previdência, contra o golpe e contra a perseguição ao Lula. Mas também há diversidade. E a diversidade da esquerda, de opiniões e propostas, não pode ser anulada.

O sr. havia dito que dificilmente concorreria contra Lula. Acha, então, que ele não conseguirá disputar? 
Tenho maior respeito pela trajetória de Lula e a clareza de que sua condenação é injusta e sem prova. Minha defesa é do direito de ele ser candidato.

Então, o sr. não veria problema em concorrer contra Lula?
Como o debate não está consolidado no MTST e ainda não há uma definição fechada da candidatura, prefiro não fazer especulações de como será o processo eleitoral.

Como financiaria a campanha?
É um debate que tem que ser feito. Mas é preciso eliminar esse modelo de campanhas faraônicas. Gerou distorções profundas. Ainda que seja artesanal, é preferível fazer uma campanha com chinelo rasgado do que comprometida com empreiteira.

O PT se deixou contaminar por esse modelo?
O PT cometeu erros e acertos. Como acertos, desenvolveu importantes políticas sociais e de valorização do salário mínimo. Um de seus erros foi não ter enfrentado a lógica desse sistema político, mantendo alianças com partidos que mandam no Brasil desde sempre.

Dada essa avaliação, há alguma possibilidade hoje de o sr. apoiar uma candidatura do PT, do Lula?
Na esquerda, temos que ser capazes de diferenciar unidade e diversidade. Somos solidários e apoiadores do Lula no direito de ele ser candidato. Mas existem diferenças que tivemos oportunidade de colocar inúmeras vezes para o próprio Lula. É de conhecimento público.

Por exemplo?
Se foi possível ter no passado um "ganha-ganha", ganhavam o andar de cima e o andar de baixo, hoje não é mais. A economia está numa recessão profunda e a sociedade está polarizada. A única forma de assegurar direitos sociais e ter um projeto popular é enfrentar privilégios. Há uma encruzilhada no Brasil. Não é mais possível reeditar acordos, nem composições sociais, do passado.

Existe chance de apoio, já que esses alertas não foram levados em conta?
Apesar de toda injustiça e massacre que o PT tem sofrido nesse período, em especial o Lula, não vejo que haja uma revisão crítica da política que vem sendo feita. Tanto no que se refere a alianças como na necessidade de um enfrentamento maior com a casa grande, com o sistema financeiro.

Então, o sr. acha difícil um apoio formal?
Isso não está colocado. Às vezes, existe uma postura infantil. De um lado, dizer "tem que estar todo mundo junto e quem critica é inimigo". Do outro lado, o infantilismo é dizer "está tudo errado, tem que se dividir todo mundo, esses caras erraram, não vamos nem sentar à mesa". É preciso ter maturidade. É plenamente conciliável uma postura política de unidade nos temas que são fundamentais, e inclusive de lealdade, e de colocar com firmeza aquilo que nos diferencia.

O sr. tem medo da pecha de que traiu o Lula?
Estivemos na linha de frente de todas as manifestações contra a condenação do Lula. Estive em Porto Alegre, São Paulo e Rio, em vários atos em defesa dele. Mais do que da boca para fora, como alguns fizeram, fizemos a solidariedade e apoio na prática. O Lula não acha isso. Aventar isso é querer colocar intriga na esquerda.

O seu sogro [metalúrgico filiado ao PSOL] acha que sua eleição seria difícil. O sr. tem esse entendimento?
​Claro, ué. Esta será a eleição mais imprevisível desde 1989. Tivemos um golpe. Há um jogo pesado para que as candidaturas do establishment ganhem, que inclui até tentar tirar o Lula do processo. Só que o lado de lá também tem problemas. Que nome eles têm? É o Bolsonaro? o Bolsonaro não dura duas semanas. É o Geraldo Alckmin, que empurram, empurram e não decola? É o Luciano Huck, o candidato da Globo, de programa de auditório, para governar o Brasil? Esta eleição não será fácil nem para um projeto de esquerda nem para aqueles que deram o golpe.

O sr pretende amenizar sua imagem, que é de duro e agressivo, para uma campanha?
As pessoas são injustas com a minha imagem. Não sou duro, nem agressivo. Brinco com minhas filhas. Tomo cerveja com amigos. Mas também não vou mudar o que sou.

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Catia Seabra
Folha de S. Paulo
Editado por Política na Rede
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