sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Moradores da Vila Kennedy relatam alívio com chegada do Exército: 'Matam um todo dia aqui'


Imagem: Luis Kawaguchi/UOL
Enquanto jovens soldados, jipes e tanques do Exército entravam na Vila Kennedy, comunidade da zona oeste do Rio de Janeiro, durante nova operação das Forças Armadas e polícias nesta sexta-feira (23), moradores consultados pelo UOL afirmaram que apoiam a operação. 

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"Matam um todo dia aqui", disse uma mulher que preferiu não se identificar, temendo represália de traficantes. A moradora, que vive na favela desde a sua fundação em 1964 e apoia a incursão das tropas, afirma que nunca viu tanta criminalidade na região quanto agora.

"Fazia muito tempo que não passava polícia por aqui, coisa de meses. De 'cidade maravilhosa', o Rio de Janeiro virou 'cidade do medo'", critica ela, indo às lágrimas quando pensa que seu neto também é soldado. "Nem eles estão seguros. Muito novos. Só Deus para guardar."

Assistindo à ação dos militares com a cabeça parcialmente para fora do portão, quatro pessoas da mesma família entraram na residência com a chegada da reportagem.

"Olha onde a gente mora. Não podemos falar. Aqui anda horrível, mas olha só, ainda bem que eles vieram. Ninguém aqui aguentava mais", disse, sob anonimato, um jovem que estava na casa. "Muito crime por aqui, crime todo dia e coisas horríveis acontecendo. Estamos aliviados", disse.

Encostado na parede de um pequeno supermercado, o aposentado João Cordeiro, 73, assistia à destruição das barricadas, feitas pelo tráfico para dificultar a entrada de forças de segurança na comunidade.

"Eu acho que agora eles vão vir sempre, né? Eu estou gostando de ver. Moro aqui há 40 anos, era tão tranquilo. Hoje fazem coisas horríveis aqui", disse. "Nos últimos tempos, vi coisas aqui que nunca tinha visto na minha vida. [A favela] virou uma grande tragédia", lamenta.

O idoso relata que assassinatos e roubos de veículos acontecem com muita frequência. "Mataram um homem a tiros do meu lado. Não sei como sobrevivi. Foi Deus."

Também apoiando a ação das Forças Armadas, uma dona de loja de doces da comunidade --que também preferiu não se identificar-- se surpreendeu. "Achei ótimo. Abri a loja e eles estavam aqui. O comércio aqui caiu por causa da criminalidade", disse. 

Crianças brincavam em rua hoje, tentando chamar a atenção de militares. Mas a lojista disse que isso não é o comum. "Geralmente os pais proíbem elas de saírem na rua. Muita gente andando de fuzil e pistola em punho", conta.

Sobre as críticas quanto à falta de policiamento na comunidade, o UOL faz contato com a Coordenadoria de Polícia Pacificadora.

A "lei do silêncio" impera na comunidade. Moradores evitam se identificar ou mesmo que a imprensa chegue perto. Isso porque há o temor de que criminosos façam retaliações depois.

A comunidade é dominada pelo Comando Vermelho. Nas vielas às quais o UOL teve acesso na manhã de hoje, diversas pichações fazem alusão à facção, além de pregar a morte de policiais da UPP e do chamado "alemão" (inimigo de facções rivais, na gíria carioca).

Ontem, uma mulher de 63 anos foi encontrada em cativeiro após ser torturada na comunidade Kelson's, na zona norte. Segundo a Polícia Civil, traficantes desconfiaram que a idosa fosse informante dos agentes. 
Vila Kennedy viveu guerra do tráfico em 2014

Apesar de contar com uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) desde 2014, a Vila Kennedy é considerada um dos bairros mais perigosos do Rio. Em outubro, o sargento reformado Gilmar Raposo foi assinado a tiros na porta de casa, na travessa Croácia.

Em 2014, uma guerra entre facções deixou vários mortos, levando a operações policiais frequentes.

Localizada na zona oeste, a cerca de 35 km do centro do Rio, a comunidade nasceu a partir de um conjunto habitacional, construído para abrigar moradores desalojados de favelas de várias regiões da cidade.

Seu nome homenageia o presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy, que chegou a doar dinheiro para a construção dos primeiros prédios e de uma réplica da estátua da liberdade.

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Luis Kawaguti e Marina Lang
UOL
Editado por Política na Rede
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