domingo, 6 de maio de 2018

Delator dá detalhes da propina a Cabral investigada na Operação Castelo de Areia, arquivada em 2011


Imagem: Reprodução
Um dos trechos da delação premiada de Carlos Miranda, principal operador do ex-governador Sérgio Cabral, joga luz sobre o caso que ficou conhecido como antecessor da Lava-Jato, a Operação Castelo de Areia. No anexo 31, Miranda revela em detalhes como Cabral recebeu propina, entre 2007 e 2008, da empreiteira Camargo Corrêa. O envolvimento do então governador do Rio era um dos focos daquela operação, deflagrada pela Polícia Federal em 2009 e arquivada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) dois anos depois.


Na época, os ministros da Corte invalidaram a investigação porque uma denúncia anônima foi usada como o único fundamento para autorização judicial das interceptações telefônicas. Agora, o Ministério Público vai abrir um inquérito para apurar as denúncias de Miranda, pois os procuradores entendem que o operador é uma fonte independente daquela investigação de 2009 e, portanto, não tem relação com a prova anulada.

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Miranda cita a Castelo de Areia em depoimento homologado pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). O colaborador confirma que a Camargo Corrêa pagou a Cabral uma taxa de 5% sobre o valor de um contrato, que era parte de um acordo para construir trecho da Linha 4 do Metrô do Rio. Identificado no esquema da empreiteira como “Avestruz”, Miranda deu detalhes de como eram feitas as transações na época em que ocorreu a renovação da concessão do Metrô Rio, sem licitação, assinada por Cabral. Segundo ele, um doleiro o telefonava para avisar hora e local de entrega. Um desses locais foi confirmado pelo jornal O Globo como uma casa de câmbio em uma galeria no Leblon, na esquina da Rua José Linhares e a Avenida Ataulfo de Paiva.

De acordo com Miranda, o ex-secretário de Governo Wilson Carlos foi o responsável por negociar os valores de propina que deveriam ser pagos pela empreiteira. O delator aponta o ex-secretário da Casa Civil Régis Fichtner como autor do “arranjo jurídico” do contrato entre o governo do Rio e a Camargo Corrêa. Ele também assume que intermediou ao menos dez prestações pagas pela construtora. De acordo com Miranda, à época Cabral pagou um prêmio de R$ 300 mil para Régis Fichtner e outros R$ 300 mil para Wilson Carlos.

TROCA DE OPERADORES

O delator afirma ainda que reportagens publicadas pela revista “Época” e pelo jornal “Folha de S. Paulo” sobre o envolvimento dos nomes de assessores de Cabral na Castelo de Areia acenderam o sinal de alerta no grupo liderado pelo ex-governador, que, rapidamente, reuniu os envolvidos para mudar o “modus operandi” do esquema. Nos papéis e e-mails apreendidos em buscas da Polícia Federal, Miranda aparece como o “provável beneficiário” de depósitos da Camargo Corrêa no exterior.

O delator contou aos procuradores que foi chamado às pressas pelo governador para uma reunião no Palácio Guanabara, da qual também teriam participado os ex-secretários Régis Fichtner e Wilson Carlos. No encontro, Miranda foi orientado pelo grupo a não circular com dinheiro, em razão de sua exposição nas reportagens. E que, por esse motivo, ficou acertado o ingresso de Luiz Carlos Bezerra como novo operador do esquema ao lado de Sérgio Castro de Oliveira (Serjão), do doleiro Renato Chebar e da secretária Sonia Ferreira Baptista.

Após a reunião no Guanabara, algumas medidas foram tomadas pelo grupo, como a troca dos aparelhos e números de telefones e a mudança de local de trabalho dos operadores.

Miranda explica que sua participação no esquema do pagamento de propina teve início quando seus contatos foram fornecidos por Wilson Carlos aos executivos da Camargo Corrêa, que, por sua vez, os repassaram a um doleiro estrangeiro denominado pela empreiteira como responsável pelos pagamentos. Aos investigadores, ele não soube identificar quem seria o doleiro. Porém, o jornal O Globo apurou que se trata do suíço Kurt Paulo Pickel, um dos alvos da Castelo de Areia.

O anexo 31 da delação de Miranda já foi incluído nos processos que tramitam na 7ª Vara Federal Criminal do Rio contra Fichtner.

O objetivo da Castelo de Areia era investigar indícios de crimes financeiros, como evasão de divisas e lavagem de dinheiro, que envolveriam políticos, doleiros e dirigentes da Camargo Corrêa. Na época, a PF apreendeu documentos que sugeriam pagamento de suborno a políticos e caixa dois em campanha eleitoral.

RÉGIS FICHTNER DIZ QUE ACUSAÇÕES SÃO FALSAS

A Camargo Corrêa disse que não vai se manifestar por desconhecer a referência à empreiteira nessa delação. A defesa de Régis Fichtner afirmou que são falsas as referências ao ex-secretário. “Cumpre lembrar que, em depoimento em vídeo, em dezembro de 2017, Carlos Miranda sequer menciona a presença de Régis na suposta reunião em que se teria deliberado a respeito do assunto em questão. Dias depois, em novo depoimento, Carlos Miranda afirma que Régis teria participado da mencionada reunião. E, 24 horas depois, em um terceiro depoimento, diferente dos demais, passa a afirmar que Régis teria não apenas participado da reunião como também sido o responsável por um ‘arranjo jurídico’. As contradições dos depoimentos já foram pontuadas pela defesa perante o Poder Judiciário e se encarregarão de desqualificar uma colaboração desprovida de qualquer credibilidade”, diz a defesa de Régis. A defesa de Wilson Carlos não foi localizada.

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Chico Otávio e Daniel Biasetto
O Globo
Editado por Política na Rede
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