sábado, 19 de maio de 2018

Militares candidatos terão projeto unificado e o General Mourão como cabo eleitoral


Imagem: Reprodução / Redes Sociais
Um grupo de militares organizados pelo general da reserva Antônio Hamilton Martins Mourão em torno do Clube Militar vai desenvolver diretrizes de programas de governo e pautas no Legislativo de cerca de 70 militares pré-candidatos às eleições de 2018 - entre eles, postulantes à Câmara e Senado, governos e assembleias estaduais. Mourão disse ao UOL que, se eleitos em número suficiente, a ideia é formar uma bancada militar no Congresso.

A articulação, com pré-candidatos em todos os estados, é inédita após a ditadura militar. O Clube Militar, que tem como sede um prédio na Cinelândia, na região central do Rio de Janeiro, deve funcionar como um centro para essa articulação e divulgação das candidaturas.

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O general, que integrou o Alto Comando do Exército e deu declarações polêmicas entre 2015 e 2017 (criticando o governo Dilma Rousseff e sugerindo uma intervenção militar no governo), avalia que chegou a hora de os militares retornarem ao poder pelas vias democráticas. "Agora não resta dúvida de que a sociedade está clamando por isso", afirmou.

Filiado ao PRTB, ele diz que não se candidatará a cargo público, mas atuará como articulador e usará sua imagem para ajudar nas campanhas dos colegas. Candidato único à presidência do Clube Militar, Mourão deve ser eleito por aclamação no fim deste mês.

Fundado em 1887, o clube é uma instituição privada que reúne militares da reserva e da ativa e tem funcionado como órgão representativo, pois eles não podem formar sindicatos. Seu passado é marcado por intenso envolvimento político, como nas campanhas abolicionista e republicana, mas, desde a ditadura militar, o clube vinha evitando a política (exceto ao se manifestar contra os resultados da Comissão da Verdade em 2014).

Os pré-candidatos, que pertencem a legendas cujo espectro político abrange da direita ao centro (PSL, PR, DEM, PSD, PROS, PSDC, PRP, PTB, PEN, PHS, NOVO, Patriotas, PRTB e PSDB), pretendem lançar mão de financiamento coletivo na internet e das redes sociais para divulgação.

Independentemente das siglas, a maioria deve apoiar o pré-candidato à Presidência pelo PSL Jair Bolsonaro que, segundo a última pesquisa (CNT/MDA), lidera a corrida eleitoral com 18,3% das intenções de voto em um cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), preso desde abril na carceragem da PF em Curitiba.

Os programas abordarão temas como o combate à corrupção, integração da segurança pública e privatização de estatais. Mourão diz ver com ressalvas programas sociais de renda, uma das principais políticas dos governos de Lula e Dilma Rousseff.

O movimento acontece em um momento em que as Forças Armadas estão em evidência na intervenção federal no Rio de Janeiro (chefiada por um general da ativa) e no socorro humanitário a imigrantes venezuelanos em Roraima. E ocorre após o comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, publicar mensagem no Twitter na véspera do julgamento pelo STF (Supremo Tribunal Federal) de habeas corpus que poderia evitar a prisão de Lula --para analistas, a mensagem teve influência na decisão.

Também houve a divulgação de um memorando da CIA que indicaria o aval de ex-presidentes militares brasileiros, como Ernesto Geisel, para assassinatos de opositores do regime militar.

O Exército afirmou, porém, que apesar dos postulantes terem origem militar, não possui qualquer ligação com as pré-candidaturas. O Centro de Comunicação Social do Exército afirmou ao UOL que "o Exército Brasileiro é uma Instituição de Estado, politicamente neutra e apartidária". "O posicionamento da Força baseia-se sempre nos interesses nacionais e o seu emprego é imparcial, com foco nas missões constitucionais", disse, por meio de nota.

Movimento militar e eleições

Nas eleições de 2010, alguns oficiais do Exército, da ativa, reserva e simpatizantes, tentaram articular um movimento para participar democraticamente do pleito à Presidência. "Naquele momento surgiu a figura do general [Augusto] Heleno [Ribeiro Pereira], pela inteligência, pela capacidade de diálogo, pela argumentação, pela liderança inconteste que ele tem até hoje", disse Mourão.

Heleno foi o primeiro comandante brasileiro da missão de paz da ONU no Haiti e se envolveu em polêmicas ao contestar ações do governo Lula. Os organizadores do movimento chegaram a dizer que ele tinha mais de 5 milhões de potenciais eleitores. Mas o general, que era da ativa, afirmou na ocasião que não seria digno se aproveitar do poder e prestígio que tinha no Exército para se lançar em uma candidatura. Ele nunca se candidatou a nenhum cargo. Um partido militar chegou a ser formado, mas não avançou.

Nas eleições de 2010, quase não houve candidatos militares significativos e, em 2014, o desempenho deles foi modesto. Mas, segundo Mourão, a deterioração do cenário político com os escândalos de corrupção e o fortalecimento da candidatura de Bolsonaro criaram em 2018 um ambiente mais favorável para os militares.

Contudo, um oficial mais cético, que pediu para não ter o nome revelado, vê certo exagero na animação dos colegas. Segundo ele, alguns pensam que apenas os seus nomes ligados às Forças Armadas serão suficientes para elegê-los. "Não vai ser tão fácil assim. As campanhas são complexas e nós não temos proximidade com a política. Somos cartesianos e algumas coisas não vamos querer fazer", disse o militar.
Plataforma e valores comuns

Mourão observa que, apesar da singularidade de cada estado brasileiro, as plataformas a serem elaboradas terão linhas de ação em comum.

"Nós temos condições de organizar a plataforma que irá orientar os nossos diferentes candidatos em todos os estados da federação. Não resta dúvida que a gente sabe que cada caso é um caso, cada estado tem a sua problemática, mas as soluções passam na maioria das vezes pelas mesmas linhas de ação", disse Mourão.

"Os nossos candidatos estão aí em sua grande maioria em partidos ligados à direita e, na realidade, eu acho que o elo comum que nos une são todos aqueles valores que nós viemos praticando desde o momento que ingressamos na instituição militar", disse, em referência a valores como honra, integridade, patriotismo e sacrifício, bastante explorados pelo próprio Bolsonaro.

Segundo Mourão, os pré-candidatos vão dar atenção a temas como o combate à corrupção, a alta carga tributária do país, a otimização dos gastos públicos e o combate à criminalidade em todo o país de forma organizada.

O general Roberto Peternelli (PSL), que tem organizado listas e feito os contatos no grupo, diz que há outras bandeiras comuns, como a defesa da propriedade privada e o estímulo da privatização de empresas estatais.

Mourão diz que programas sociais de renda e habitação são importantes, mas não podem beneficiar eternamente quem os usa. "A partir de determinado momento, aquela pessoa vai ser liberada dessa ajuda e vai caminhar com as suas próprias pernas. Infelizmente, a nossa população, parcela dela, tem aquela tendência de ficar aguardando que o coco caia na cabeça, não pode ser assim."

Para tornar as candidaturas viáveis, os militares devem recorrer a campanhas de financiamento coletivo, o crowdfunding. Para a divulgação, eles afirmaram que confiarão no potencial das redes sociais e do boca a boca. Mourão disse que vai reforçar a divulgação desses pré-candidatos usando as redes sociais, a revista e as reuniões do Clube Militar. 

"Existe um termo usado na Brigada Paraquedista que diz que aves da mesma plumagem voam juntas. Esse grupo militar que eventualmente for eleito vai ser uma bancada, apesar de pertencer a diferentes partidos", disse Mourão.

Ele também não descartou que militares eleitos se aproximem simultaneamente a outras bancadas, como a ruralista.

Em 2017, Mourão se notabilizou ao sugerir a possibilidade de uma intervenção militar no governo. Ele disse que, se as instituições civis não solucionassem o problema político do país retirando da vida pública pessoas envolvidas com atos ilícitos, "nós [militares] teremos que impor uma solução".

Ao ser perguntado pelo UOL se há alguma possibilidade de os militares voltarem ao poder por vias não democráticas, Mourão afirmou: "uma coisa tem que ficar muito clara: se o país flertar com o caos, é dever constitucional das Forças Armadas garantir os poderes e garantir a lei e a ordem".

Como exemplo de caos, citou o que vê como "desrespeito à legislação vigente". "Nós temos um caso agora que poderia ter levado ao caos, vamos olhar aí essa questão do julgamento feito pelo STF do foro, a questão do foro, esse é um troço que deveria ter sido resolvido pelo Congresso e não pelo STF". Neste mês, o Supremo Tribunal Federal restringiu, mas não acabou completamente com o foro privilegiado de políticos.

Mas, questionado como os militares poderiam voltar ao governo, Mourão respondeu: "vamos chegar pelas urnas".

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Luis Kawaguti
UOL
Editado por Política na Rede
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