sexta-feira, 4 de maio de 2018

'Ocupar prédio é um vício', diz líder de 'movimento' que coordena invasões


Imagem: Luís Lima / Ag. O Globo
Um dos principais interlocutores entre ex-moradores do edifício que desabou após um incêndio no centro de São Paulo e o governo municipal, Ricardo Luciano Lima, de 41 anos, o Careca, contabiliza ter invadido cerca de 50 prédios pela cidade. Desde 2012, quando participou da primeira ocupação, treinou o olhar para identificar imóveis abandonados na capital e concentrou suas forças para derrubar portas e paredes para invadi-los.

— É um vício. Quem gosta de figurinha, vê uma banca de jornal e procura figurinha. Quem gosta de novela, quer revista para saber as notícias da novela. Eu ando olhando para cima para ver os prédios — resume Careca, que responde por sequestro, cárcere privado e furto de água. Os crimes, segundo os autos, foram cometidos nas invasões.

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Em 2016, Careca fundou o seu próprio grupo, o Movimento de Grito por Moradia (MGM). Antes, integrou o Luta por Moradia Digna (LMD) e Movimento de Luta Social por Moradia (MLSM), responsável pela ocupação do edifício Wilton Paes de Almeida que foi ao chão. Ele afirma, porém, não ter participado da invasão, nem ter morado no local por divergência com a “síndica” da ocupação, uma mulher conhecida como “Dona Nil”.

Mesmo assim, Careca permanecia próximo da organização do movimento. Pouco antes dos 24 andares desmoronarem, falou ao telefone com Ananias, apontado como líder do MLSM e que não é visto desde a tragédia. Segundo Careca, o homem estaria no Paraná e pouco antes da tragédia teria lhe chamado para voltar a trabalhar nas ocupações com ele.

— Não é estranho que ele (Ananias) não esteja aqui. Ele está em depressão, chora muito. Diante de tudo isso, ele não quer aparecer — tenta defender Careca, que, na ausência dos coordenadores do MLSM, se tornou um porta-voz dos desabrigados.

—Eu vim ajudar. Existe um grau de amizade entre a coordenação dos movimentos — conta.

Além de amigo, Ananias é uma espécie de padrinho de Careca na militância por moradia. Em 2012, após ser expulso da casa da mãe, ele conheceu Ananias, que o convidou para arrombar um prédio no centro de São Paulo. Antes, tinha invadido quatro casas na zona leste de São Paulo e no litoral, mas topou o desafio. O novato corpulento ganhou prestígio ao derrubar uma porta a marretadas e ao enfrentar a polícia durante a invasão. Em pouco tempo, Careca virou coordenador do movimento e passou a “abrir prédios”, como se diz no jargão das ocupações.

Desde que fundou o seu próprio "movimento", Careca fez duas invasões sozinho e, aos poucos, levou famílias para os imóveis. A primeira ocupação foi em 2016. Até a reintegração de posse em abril deste ano, 18 famílias habitavam o local. Desalojado, há 20 dias entrou em um sobrado no bairro do Brás, na região central de São Paulo, onde seis famílias já se instalaram.

As ocupações são hoje a única atividade remunerada de Careca. O dinheiro, segundo ele, vem das mensalidades de R$ 100 pagas pelas famílias para bancar pequenas reformas e instalações como água e luz.

— É aquela coisa do desespero. Não quero que as famílias vão para a rua. Me sinto responsável por eles. Abro o prédio e os coloco para dentro. O que vai acontecer depois daí é Deus — diz.

O valor de R$ 100 das "mensalidades" mencionadas por Careca difere das cifras apresentadas por ex-moradores do prédio. No dia tragédia, sobreviventes informaram que chegavam a pagar R$ 400 de aluguel para viver em meio a um ambiente precário e sem condições mínimas de segurança, conforme aponta um laudo da prefeitura de São Paulo. O documento é de janeiro do ano passado.

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Jussara Soares e Luís Lima
O Globo
Editado por Política na Rede
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