sábado, 2 de junho de 2018

Em gravação, sobrinho de deputado dá aval a propina e promete ajuda em ministério


O deputado federal Jovair Arantes (PTB-GO)
Imagem: Fernando Vivas / Folhapress
Em áudio gravado pela Polícia Federal, um dos sobrinhos do deputado federal Jovair Arantes (PTB-GO) prometeu usar sua influência para que o registro de um sindicato fosse liberado no Ministério do Trabalho em troca de R$ 4 milhões em propina.

Na conversa, ocorrida em junho de 2017, Rogério Arantes informa que direcionaria o caso ao então ministro Ronaldo Nogueira (PTB-RS), que deixou o cargo em dezembro do ano passado, e ao atual secretário-executivo da pasta, Leonardo Arantes, também sobrinho de Jovair. 

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Tanto Rogério quanto o número dois da pasta são alvos de mandados de prisão preventiva expedidos na Operação Registro Espúrio, deflagrada pela Polícia Federal nesta quarta (30).

O diálogo, gravado em junho do ano passado, ocorreu num hotel de Brasília. Foi monitorado por investigadores. 

Na ocasião, o empresário Afonso Rodrigues de Carvalho, representante do Sindicato das Pequenas e Micro Empresas de Transporte de Veículos Novos no Estado de Goiás (Sintrave-GO), pede a ajuda de Rogério, diretor do Incra, para destravar o registro da entidade, que pleiteia desde 2002. 

Ele havia sido levado à reunião pela lobista Veruska Peixoto Carvalho, com quem negociava a propina, que teria entre os destinatários o próprio Jovair e também o grupo do deputado Paulo Pereira da Silva (SDD-SP). Dias antes, o empresário havia denunciado o caso à PF.

Informações sobre o esquema de corrupção na pasta foram reveladas em março deste ano pela revista Veja. A Folha de S. Paulo teve acesso ao conteúdo do diálogo no hotel.

“Nos estamos falando um valor alto, né, cara, pra mexer com 4 milhões, e não é meu. Tu mexe com dinheiro dos outros, tu tem que tá sempre velhaco, né?”, disse o empresário. O sobrinho de Jovair, na sequência, respondeu: “Claro”.

O diretor do Incra deixa claro que a lobista é sua interlocutora e o orienta a protocolar o pleito de seu interesse no Trabalho. “Vamos direcionar isso pra secretaria ou pro ministro?”, questionou o empresário.

“Tem que ser com ministro. Eu trato com ele diretamente, pessoalmente”, explicou Rogério.

O sobrinho de Jovair informou que falaria com o ministro e pediria o monitoramento de uma pessoa ligada ao seu grupo. “Foi o que eu falei pra Veruska. Se o rapaz estivesse aí, eu ia te apresentar ele. É quem vai acompanhar isso.”

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“É o outro sobrinho?”, perguntou o empresário. “Exatamente! É o Leonardo, só chega na terça-feira que vem”, respondeu Rogério, em referência ao atual secretário-executivo do Trabalho. 

O processo de concessão de registro do Sintrave não avançou. Além de a propina não ter sido paga, os envolvidos ficaram sabendo das investigações. 

Mesmo depois disso, uma ex-servidora do ministério pediu R$ 500 mil em troca de vazar documentos internos à entidade.

OUTRO LADO

O Ministério do Trabalho informou que está acompanhando atentamente as ações da PF. Em nota, alegou que aguardará serenamente a conclusão das investigações “sem prejuízo à nobre missão da Secretaria de Relações de Trabalho e seu relevante papel social”.

“Apuradas as responsabilidades, dispensável dizer que o ministério não se eximirá de aplicar as penalidades previstas em lei. Dentro do tempo próprio da nossa Justiça, aguardamos que os fatos arrolados na investigação sejam devidamente apurados dentro do ambiente de isenção que o Estado de Direito permite —garantindo o mais amplo direito de defesa aos servidores e ex-servidores”, acrescentou.

A Folha de S. Paulo não conseguiu contato com representantes de Rogério e Leonardo Arantes.

Jovair informou que se manifestaria por meio de nota de seu partido. O PTB negou ter participado de negociações espúrias no Trabalho e que, se comprovado o envolvimento de seus integrantes no esquema, “os culpados, se houver, devem assumir suas responsabilidades”. 

Paulinho, que é presidente nacional do Solidariedade, afirmou em nota que “foi investigado em diversas oportunidades e sempre conseguiu provar que as denúncias foram fruto de pessoas incomodadas com sua atuação contundente na defesa incansável do trabalhador brasileiro”.

O comunicado diz que a citação do deputado na operação carece de fundamento e criminaliza o movimento sindical. 

“O deputado desconhece em absoluto os fatos investigados e esclarece que o Partido Solidariedade não é o responsável pelas indicações no Ministério do Trabalho”, acrescentou.

O Incra informou que cabe à Presidência da República exonerar seus diretores. Acrescentou que Rogério Arantes viajou ao Maranhão e deveria retornar nesta quarta.

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Fábio Fabrini e Letícia Casado
Folha de S. Paulo
Editado por Política na Rede
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