terça-feira, 17 de junho de 2014

Lula teria sido mais corajoso se tivesse ido à estreia da Copa, diz jornalista Dora Kramer


Imagem: Reprodução / Redes Sociais
A jornalista Dora Kramer publicou artigo intitulado 'Quem com ferro fere', em que comenta os xingamentos recebidos pela presidente Dilma na abertura da Copa, sua repercussão, e, especialmente, seu uso político por parte do próprio partido da presidente. 

A jornalista relembra diversos momentos em que o ex-presidente Lula agiu de forma grosseira, fomentou o ódio em relação aos adversários de seu partido, ou comportou-se de forma desrespeitosa. Por fim, comentou o gesto do ex-presidente de dar uma rosa branca à presidente como forma de desagravo, acrescentando o seguinte comentário: "Mais corajoso e solidário, porém, teria sido se tivesse ido ao jogo de estreia da Copa de que foi o maior patrono para dividir com a criatura os ônus do conjunto de uma obra à qual o País dá fortes sinais de rejeição".
Leia abaixo a íntegra do artigo da jornalista: 

Numa coisa o PT está certo: as manifestações contra o governo em geral, o partido de modo específico e a presidente Dilma Rousseff em particular refletem mesmo um sentimento de forte rancor.
Uma espécie de reverso daquele amor que explodiu em 2002, resistiu às intempéries dos escândalos de 2005/2006, renovou-se de modo mais ameno em 2010 e agora vai ao extremo oposto em forma de exaustão captada pelas pesquisas.

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Nada disso torna aceitáveis os insultos dirigidos à presidente na abertura da Copa. Leitores escrevem para dizer que a rudeza vocabular faz parte do espetáculo futebolístico e que ao criticá-la demonstro ausência de familiaridade com o ambiente dos estádios.
De fato. Além disso, nutro especial ojeriza por palavras chulas, talvez por extremo apreço ao idioma de tão variadas e belas possibilidades.
Poderíamos ir em frente considerando o episódio chuva que já choveu se o ex-presidente Lula da Silva não tivesse visto nele uma oportunidade para tentar mais um daqueles contra-ataques em que aponta defeitos no outro sem olhar para o espelho.
O uso de palavrões e termos grosseiros para se referir aos adversários em público sempre foi marca de Lula na oposição e no governo. Fez isso contra presidentes da República, inclusive. E também quando investido na Presidência. Não é, portanto, o professor mais credenciado a dar aulas de etiqueta e civilidade a quem quer que seja.

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No tocante ao "ódio de classes" ao qual se referiu para dizer que ali naquele estádio estavam ricos atacando a única pessoa com "cara de pobre" (desde quando?) que havia no ambiente, tampouco é locutor autorizado.
Pois foi ele quem desde o início do governo fez do bordão "nós contra eles" uma hipotética arena de luta de classes mediante a qual haveria uma divisão no Brasil, sendo que o nós" eram todos os que apoiavam o governo (ricos, pobres, conservadores, progressistas) e "eles" os que ousavam discordar.
Foi o PT que adotou durante todo o tempo em que seus governos obtiveram alta aprovação popular um tom francamente agressivo e zombeteiro em relação aos críticos.
Uma palavrinha a mais para encerrar, por ora, o caso do estádio: o ex-presidente no dia seguinte prestou solidariedade à presidente entregando a ela uma rosa branca. Bonito gesto. Mais corajoso e solidário, porém, teria sido se tivesse ido ao jogo de estreia da Copa de que foi o maior patrono para dividir com a criatura os ônus do conjunto de uma obra à qual o País dá fortes sinais de rejeição.

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Quanto às maneiras rancorosas, Lula as escolheu como armas de combate. Nem por isso se deve considerar aceitável que população e candidatos de oposição se utilizem de igual falta de modos.
Há mesmo, como dizia no início, uma sensação de repulsa latente no ar. O PT captou isso, fez de conta que o sentimento é coisa da "zelite" mancomunada com a oposição e incentivada pela imprensa e repaginou o slogan do "a esperança venceu o medo", substituindo-o por "a esperança vencerá o ódio".
Bem sacado. Faltando apenas adaptar a segunda parte do roteiro. Lá atrás havia de fato uma esperança, de "mudança". Agora, para dar certo o eleitorado que, segundo as pesquisas, vem perdendo a confiança no governo, precisa ser convencido de que vale a pena ter fé. A questão é: fé em quê?
Dora KramerO Estado de S. Paulo

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