quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Homenagem a promotor reúne 400 mil sob chuva e eleva pressão sobre Cristina Kirchner


Imagem: Leandro Idoria / AFP
Pelo menos 400 mil pessoas, segundo a polícia metropolitana de Buenos Aires, desafiaram ontem um temporal em una marcha silenciosa em homenagem ao promotor Alberto Nisman, encontrado morto há um mês, dias depois de denunciar a presidente Cristina Kirchner e dirigentes do governo. 


No começo da manifestação, a chuva era tão intensa que os participantes ficaram colados às paredes dos edifícios da Avenida de Maio, que liga o Congresso à Casa Rosada, trajeto formal da manifestação. Quando a chuva arrefeceu, por volta das 19 horas (20 horas em Brasília), a avenida ficou completamente tomada por guarda-chuvas e o nome marcha perdeu sentido. Não havia como mover-se. 

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Com a avenida repleta, parte da população usou as ruas perpendiculares para chegar à sede do governo presidencial e ali parou. Na maior parte do tempo, os manifestantes ficaram em silêncio, às vezes quebrado por aplausos e gritos de "Justiça", "Argentina" e "Sentimos Nisman". Vista de cima, a multidão parecia uma grande aglomeração de guarda-chuvas. De baixo, todos estavam ensopados e com semblantes decididos.

"Vim por tudo que está errado. Mataram um promotor, mas não é só isso. Moro na periferia e há mortes de jovens todos os dias pela polícia", disse Lidia Serrano, de 58 anos, que viajou 2 horas para participar.

Embora os organizadores da manifestação tenham ressaltado o caráter apolítico do ato - não havia bandeiras de partidos, apenas cartazes que não fossem de Nisman ou da bandeira argentina - as razões para a presença iam além da morte do promotor e atingiam indiretamente os políticos. "É uma marcha silenciosa, então não vou falar mal do governo. Mas estamos indignados com tudo, com a corrupção que mata", afirmou María Guevara, dona de casa de 62 anos, segundo ela parente em 5.º grau do revolucionário. "Precisamos dizer um basta. A oposição também não apresenta solução", acrescentou, depois de comprar uma capa de chuva de 30 pesos, quando já estava totalmente molhada.

Houve também "infiltrados" na manifestação. A vendedora de refrigerantes Eloisa Alegre colocou seu isopor na Praça de Maio antes que a marcha chegasse. Não havia vendido nenhum quando a tempestade a obrigou a fechá-lo e se refugiar num carro antigo. "Sou Cristina até morrer, minha vida melhorou com ela. Mas tenho que aproveitar o movimento para ganhar alguma coisa", afirmou.

"O que não podemos suportar é a falta de transparência. Uma morte dessas não pode ser algo comum", disse o vendedor aposentado Ricardo Sotola, que reclamava também do baixo valor da aposentadoria. Às 19h30, quando ninguém conseguia andar ao longo das principais avenidas do centro, os manifestantes cantaram o hino nacional.

Acusação. O promotor morto dizia ter gravações que comprovariam uma conspiração liderada pela presidente para proteger altos funcionários iranianos, em troca de acordos comerciais fechados com Teerã. 

A blindagem seria relativa às suspeitas de participação dos iranianos no planejamento do atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), em Buenos Aires. O ataque terrorista matou 85 pessoas em 1994.

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Rodrigo Cavalheiro
O Estado de S. Paulo
Editado por Folha Política
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