terça-feira, 10 de julho de 2018

Joesley e Mantega usariam codinomes 'Bill' e 'Steve' em conversas secretas


Imagem: Renato Costa / Ag. O Globo
Dois números de telefones celulares registrados em nome de uma suposta funcionária da JBS, empresa do Grupo J&F, estão no centro de uma nova frente de investigação da Polícia Federal sobre traficâncias cometidas por Joesley Batista no governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Eles entraram na mira dos investigadores depois de o aparelho Blackberry usado por Joesley ter sido periciado. No aplicativo de mensagens do celular, os investigadores encontraram uma série de diálogos cifrados de Joesley com um contato do Ministério da Fazenda. O dono da J&F usava o codinome “Bill” nas conversas. Já seu interlocutor atendia pela alcunha de “Steve”. Ambos usavam linhas ativadas pela JBS no mesmo dia: 17 de janeiro de 2011. Todas as conversas ocorreram de fevereiro a agosto de 2011, durante o primeiro mandato de Dilma.

Relatório de 27 páginas da Polícia Federal, obtido pelo jornal O Globo, revela que Bill costumava acionar Steve para tratar de interesses bilionários no Ministério da Fazenda e, eventualmente, pedir audiência com a "presidenta". Pela complexidade dos pedidos de Bill, a PF investiga se Steve seria o próprio comandante da Fazenda à época, o hoje ex-ministro Guido Mantega.

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“Embora não se possa afirmar de forma categórica quem de fato seja o referido interlocutor, o confronto do conteúdo das referidas mensagens somado ao contexto e época em que ocorreram com os anexos da colaboração premiada de Joesley, evidencia a existência de uma forte correlação entre a atuação deste com o quanto narrado pelo delator em relação ao então ministro da Fazenda à época, Guido Mantega”, escreve o investigador da PF na conclusão do relatório, que foi incluído no inquérito que investiga Joesley na Justiça Federal de Brasília.

As conversas de Bill e Steve ocorreram entre 2 de fevereiro e 30 de agosto de 2011 e tratavam de assuntos de interesse da J&F no governo Dilma Rousseff. Esses assuntos foram narrados por Joesley em sua delação exatamente nos anexos que tratavam das relações impróprias do dono da J&F com Mantega. Os pedidos de Joesley são relacionados a empréstimos do BNDES, pedidos de audiências com próceres do PT, como o então governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, e negócios de interesse das empresas do grupo J&F.

Em uma mensagem do dia 22 de fevereiro, por exemplo, fica evidente, pela natureza incomum do pedido de Bill a Steve, que o interlocutor do dono da J&F seria uma importante autoridade da área econômica do governo, com poderes para liberar recursos em escala industrial nos cofres da União: “Falei com BB. Ele garantiu R$ 1 bi. Será que a Caixa não arruma mais R$ 1 bi para viabilizar o deal (acordo em inglês) com o Matone?”, questiona Joesley. A resposta de Steve ao pedido bilionário de Bill vem no dia seguinte: “Vou tentar”.

Em outro conjunto de mensagens, dos dias 2 a 9 de fevereiro, Bill busca “notícias” de Steve sobre demandas envolvendo o fundo de pensão dos servidores da Caixa, a Funcef, e o Banco do Brasil. “Observa-se que ele as pontua de forma absolutamente concisa e abreviada, sem entrar em pormenores, visto que seu interlocutor, ao que se pode presumir, já as conhecia”, aponta o relatório da PF.

São cinco mensagens em sequência de Bill: “To esperando notícias!”, escreve, no dia 2. “Valeu por hoje! Te vejo na terça em Brasília”, anotou no dia 5. “Guilherme Funcef fusão”, enviou no dia 8. “Dida dtvm banco”, escreveu também no dia 8. No dia seguinte, Steve respondeu: “Ok.”

Naquele ano, o presidente da Funcef era Guilherme Narciso Lacerda e a Eldorado, uma das empresas do Grupo J&F no período, pleiteava a fusão com a empresa de reflorestamento Florestal, que tinha entre seus controladores Joesley e os fundos Petros e Funcef. Em sua delação, Joesley afirmou ter pago propina a Guilherme Lacerda para que os interesses de suas empresas junto ao fundo fossem atendidos. Um destes interesses, de acordo com o delator, teria sido exatamente o aporte da Funcef na Florestal, empresa criada por Joesley em 2009 e que recebeu aportes de R$ 500 milhões do Petros e da Funcef. Em contrapartida, afirmou o empresário, foi pago 1% do valor dos aportes para presidentes de cada um dos fundos de pensão.

Entre 1º de março de 2011 e a madrugada do dia 2 do mesmo mês, por exemplo, Bill trava uma conversa com Steve sobre a negociação que estava em curso envolvendo a compra do banco gaúcho Matone. Em 14 de março daquele ano, a holding J&F, que controla a JBS, anunciou a compra do banco Matone, que atuava na área de crédito consignado com sede no Rio Grande do Sul e que era controlado até então por Alberto Matone. Conforme divulgado na época, as negociações para a aquisição do banco foram conduzidas por Joesley. Naquele período o governador do RS era Tarso Genro. Na conversa, doze dias antes da operação ser anunciada, Bill pede uma conversa a Steve.

“Estarei em BSB (Brasília) terça à noite, e quarta o dia todo. Tem como falar com você? Matone vai dar certo essa semana!”, afirma Bill. “Quarta no final da manhã”, responde Steve. “No ministério? Estarei amanhã meio-dia no BC (Banco Central) falando sobre o Matone. E preciso falar com Tarso Genro pois o Matone eh do Rio Grande do Sul. Será que você me ajuda a marcar na quinta-feira?”, retruca Bill. “Você quer falar com o TG? Precisa de permissão do Estado? Posso falar com ele amanhã”, responde Steve. “Não, é que o Banrisul é importante financiador do Matone. Então, gostaria do comprometimento dele. Amanha vou te ver?”, pergunta Bill.

Steve não responde sobre a reunião, mas se manifesta quando Bill fala em números: “E amanhã, 50, ou 80??!!! (sic)”, escreve Bill. “Sim. Primeira op”, responde Steve.

Essa conversa sobre números chamou atenção da PF porque Joesley afirmou, em sua delação, que pagava R$ 50 mil em propina ao então ministro em troca facilidades no Ministério da Fazenda. À medida que a relação com Mantega tornava-se mais íntima, segundo Joesley a partir de 2009, as propinas passaram a ser definidas “caso a caso”. O dia três de março daquele ano caiu em uma quarta-feira e, naquele dia, Mantega teve agenda oficial em Brasília, dando expediente no Ministério da Fazenda.

Em 26 de fevereiro, “Bill” mandou uma mensagem a Steve pedindo um encontro com a “presidenta”, outro indicativo de que o interlocutor Steve tinha trânsito no gabinete mais importante da República: “Na semana do dia 4 de abril estaremos com toda diretoria da JBS no Brasil, faremos apresentação no BNDES, Previ, Petros, Funcef (fundos de pensão de servidores do Banco do Brasil, Petrobras e Caixa), Ministério da Agricultura. Será que não seria uma boa oportunidade para tentar marcar uma apresentação da JBS com a presidenta?”. No aparelho, porém a PF não encontrou nenhuma resposta de “Steve” para esse pedido.

Procurado, o advogado do ex-ministro, Fabio Tofic, não confirmou nem negou os diálogos, mas criticou o relatório da PF: “Não configura boa prática investigativa usar meros achismos como se fossem conclusões. Trata-se de método temerário e capaz de gerar grave dano a honra alheia”, diz Tofic. Questionado sobre o pedido de audiência de Joesley, o ex-governador gaúcho Tarso Genro disse que não conhece Joesley e que não teve encontro com o empresário.

Joesley é investigado na Operação Sépsis, deflagrada em 1º de julho de 2016, como desdobramento da Operação Lava-Jato. O objetivo da operação foi investigar um suposto esquema de pagamento de propina para liberação de recursos do Fundo de Investimentos do FGTS (FI-FGTS), administrado pela Caixa. Joesley ainda é alvo da Operação Bullish, deflagrada em 12 de maio de 2017, para investigar fraudes em aportes concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao frigorífico JBS.

Diante do conteúdo encontrado no aparelho Blackberry e também de outros materiais encontrados nas buscas da Operação Sépsis, o delegado da Polícia Federal Wellington Santiago da Silva pediu o compartilhamento do material encontrado na operação com as operações Bullish e Greenfield, que tem entre os investigados por suspeitas de fraudes em operações dos fundos de pensão e do BNDES o próprio Joesley Batista.

A assessoria de imprensa da J&F não quis comentar o assunto. Questionado se foi procurado por algum representante do Ministério da Fazenda ou da J&F para atuar na compra do banco Matone, o Banco do Brasil informou que não participou da operação e que “não há registro de operações realizadas ou sequer analisadas neste sentido”. A Caixa, por sua vez, afirmou que não se manifesta sobre relações com clientes e que “está em contato permanente com as autoridades, prestando irrestrita colaboração com os trabalhos, procedimento que continuará sendo adotado pelo banco”.

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Mateus Coutinho
O Globo
Editado por Política na Rede
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