terça-feira, 17 de julho de 2018

'Vamos registrar Lula e, se de todo for inviável, será escolhido alguém para representá-lo. Isso vai ocorrer até 20 dias antes do primeiro turno', diz ex-presidente do PT


Imagem: Karime Xavier / Folhapress
O programa de governo do PT não será antimercado e fará, inclusive, acenos ao empresariado e à classe média. É o que diz o ex-presidente do partido Rui Falcão.

Entre as propostas, que devem ser lançadas nos próximos dias, devem estar a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco salários mínimos e medidas para a estabilidade do câmbio.


Lula disse que "já não há razões para acreditar" que terá justiça. Por que insistir na sua candidatura? 
Com mobilizações sociais e eventual decisão sobre as ADCs no STF [sobre prisão após condenação em segunda instância], acredito que Lula possa ser liberado, mas só com muita pressão popular. Independentemente de ele conseguir libertação, vamos registrá-lo em 15 de agosto e utilizar todos os recursos para que ele possa estar na urna.

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Com esse discurso, o PT não teme perder o timing e ficar isolado? 
Que bom isolamento, com 30% das intenções de voto.

Não preocupa ficar isolado em termos partidários?
Não é que não preocupa. Pelo quadro de instabilidade, as probabilidades vão nessa direção. Mas não dá para dizer que o PT está no gueto, temos apoio popular.

Quando será a hora de discutir o lançamento de um novo nome do PT ou o apoio a outro partido? 
Vamos registrar Lula e, se de todo for inviável, será escolhido alguém para representá-lo. Isso vai ocorrer até 20 dias antes do primeiro turno.

Lula está preso e proibido de fazer campanha. Haverá tempo para transferir votos em 20 dias? 
O potencial apareceu no Datafolha: 30% votariam no nome indicado por ele e 17% talvez votariam. Com os últimos episódios, escancarando parcialidade e injustiça, o poder de transferência deve se ampliar.

O discurso de vitimização ajuda a impulsionar uma candidatura apoiada por Lula? 
Não é discurso, ele realmente se transformou em vítima pelo autoritarismo do sistema. Vou insistir: ele será registrado, vamos levar até o limite possível, e a substituição só ocorrerá se houver uma impossibilidade total, que não se cogita agora.

Lula foi condenado por corrupção e lavagem. Como ir para o debate com esse passivo? 
Lula não cometeu crime, ele é alvo de delações sem provas.

Mas está condenado. 
Não em última instância. Minha expectativa é de que todas essas punições possam ser revistas.

Jaques Wagner, possível plano B, admite apoiar nome de outro partido. Não quer ser opção? 
Tem que perguntar a ele.

Não é preferível apostar em Fernando Haddad? 
Toda vez que começamos a opinar sobre alternativas, passa a impressão que não acreditamos na candidatura do Lula. Vamos pensar se Lula se tornar inviável.

A direita, com Jair Bolsonaro (PSL), lidera as pesquisas sem Lula. Preocupa? 
É temporário. A pesquisa com outra candidatura do PT, depois da interdição do Lula, ganha outro conteúdo. Tem um pesquisador que diz que as pessoas só vão acreditar que Lula não é candidato no dia —e se— Lula disser que não é candidato.

O PT tem conversado com PP e PR. Aceitaria apoio do centrão? 
Claro que não. Nosso programa é incompatível com esse bloco que apoia Temer. Queremos revogar a emenda 95 [que cria teto para os gastos públicos], que congela o Orçamento por 20 anos, acabando com a possibilidade de ampliar programas sociais e melhorar serviços públicos; queremos revogar a reforma trabalhista, pelo menos o que prejudica os trabalhadores, recuperar a soberania nacional, revendo privatizações na área do petróleo.

O sr. cita algumas ideias que vão estar no programa de governo do PT... 
Não está fechado. Sei que vai tratar de aspectos que interessam à vida da população: preço do gás de cozinha, saúde, saneamento, moradia e emprego. Tem ideias que acho importantes, como reverter as reformas desastradas do Temer, por plebiscito ou referendo. 
Que prioridades vejo: redução das desigualdades, expansão e elevação da qualidade da oferta pública de bens e serviços sociais, reafirmação da soberania nacional...

Não será uma Carta aos Brasileiros 2.0.? 
Não... [continua] e a garantia de sustentabilidade ambiental. Os tributos estão concentrados na produção e no consumo, impostos indiretos, injustos. Tem que jogar para os diretos, de renda, sobre ganho de capital, dividendos...

Uma Carta aos Brasileiros ao inverso.
Não, porque vai fazer a economia voltar a rodar. Se amplia o crédito, tira imposto sobre o consumo, passa a comprar mais, o comércio vende mais, as indústrias produzem mais. Ter estabilidade do câmbio, da inflação e baixar a taxa de juros é bom para o empresariado. A Carta aos Brasileiros era para acalmar o mercado, agora não é antimercado, é a favor do povo, da maioria.

Lula se diz hostilizado pelo establishment financeiro, imprensa e elite. No programa haverá acenos a esses setores? 
Tem, falei aqui: a estabilidade do câmbio, da inflação, redução dos juros, abertura de mercados. A ideia de isentar do Imposto de Renda quem ganha até cinco salários mínimos é bom aceno à classe média, sacrificada pelos impostos. Lula governou para toda a população, inclusive empresários, mas priorizando quem mais precisa. Esse é o sentido que será impresso novamente.

Em que medida o PT vai retomar bandeiras históricas? 
Com a reforma agrária, produção de alimentos saudáveis, não permitir a redução das reservas indígenas e quilombolas, reativar o Minha Casa, Minha Vida...

Não será um programa radicalizado à esquerda. 
Estou falando de opiniões minhas. Você não pode governar ignorando que tem empresários, tem que ter políticas que os atendam.

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Marina Dias
Folha de S. Paulo
Editado por Política na Rede
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