sábado, 5 de dezembro de 2020

Matéria do Estadão sobre ‘youtubers’ leva velha imprensa ao ridículo e escancara cumplicidade com o autoritarismo


Na data de ontem, a velha imprensa destacou, com alvoroço, uma matéria realizada pelo jornal O Estado de São Paulo, que apresentou como algo “muito grave” o fato de veículos de imprensa independentes auferirem rendimentos. O jornal afirmou ter tido acesso à íntegra do inquérito 4828, conduzido em segredo pelo ministro Alexandre de Moraes, no Supremo Tribunal Federal. Os advogados dos investigados não têm acesso à íntegra dos autos. A velha imprensa, por sua vez, repercutiu com grande estridência a matéria do Estadão, misturando fatos atribuídos a pessoas e empresas diferentes e sem qualquer relação entre si. 

O deputado Marco Feliciano ironizou o tom de “escândalo” das matérias, dizendo: “Com medo da concorrência, Estadão cria enredo fantasioso, tentando criminalizar atividade jornalística da mídia alternativa. Acusa youtubers de “ganhar até 100 mil por mês”. Então só o Estadão pode lucrar com audiência? Não estão defendendo democracia, mas defendendo seus lucros”. 

O antropólogo e escritor Flávio Gordon afirmou: “Para assassinar a reputação de adversários políticos, o Pravdão teve acesso ao inquérito sigiloso dos ditos “atos antidemocráticos”, que tramita no STF. Os advogados dos réus, ainda não. Isso resume o que significa “estado democrático de direito” no Brasil”.

A jornalista e socióloga Sarita Coelho apontou a incoerência, dizendo: “Ué, se essa notícia do Estadão é EXCLUSIVA, trata-se de uma informação privilegiada. No caso em questão, um privilégio fruto de crime, já que a informação é sigilosa e não deveria ter sido vazada. E o veículo está ganhando dinheiro com ela. Acuse-os do que você faz!”. 

O jornalista Carlos de Freitas, do site Senso Incomum, afirmou: “Com o medonhamente bombástico título “Como youtubers bolsonaristas ganham R$ 100 mil mensais com informações privilegiadas do Planalto”, o ex-jornal tenta dar ares de crime a uma prática absolutamente corriqueira: a de usar contatos para obter informações. Cheio de linguagem marcada e jeca: “manifestações contra a democracia”, “gabinete do ódio”, “estilo beligerante”, entre outras coisas, a matéria tenta iludir o leitor de que trata-se de crime gravíssimo obter informações de gente do governo. Fazer jornalismo agora é crime? A inépcia do jornalismo profissional se revela nesse tipo de matéria em que a própria forma contradiz o conteúdo. Como acusar alguém de obter informações privilegiadas, obtendo informações privilegiadas?”. 

O jornalista Allan Dos Santos, citado nas reportagens, disse: “No mesmo dia que o SStf teve QUATRO votos rasgando a Constituição, os “INSUSPEITOS” Estadão e Rede Globo  ressuscitam o INQUÉRITO INCONSTITUCIONAL para abafar e colocar MEDO na população que critica os ATOS ANTIDEMOCRÁTICOS DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Você viu os jornais divulgando que Patrícia Campos Mello e Folha de S. Paulo foram CONDENADOS  a pagar 100 MIL REAIS por associar Luciano Hang a disparos em massa nas eleições de 2018? A mídia tida como GRANDE esconde a verdade que VOCÊ quer saber”.

O investidor Leandro Ruschel disse: “O Jornal Nacional, através de um acesso privilegiado à Justiça, consegue inquérito que está sob sigilo, e acusa produtores independentes de conteúdo de "lucrar com acesso privilegiado à presidência". Ao invés de denunciar a perseguição política, fazem parte dela”.  Ele mencionou também a reação da velha imprensa ao julgamento em curso no STF, dizendo: “Por que não haverá protestos significativos contra o golpe na Constituição? Simples, porque quem já protestou está sofrendo perseguição policial. É o típico quadro de uma ditadura: use o aparato do Estado para silenciar críticos e, concomitantemente, exerça o poder como quiser. A imprensa "profissional" é parceira do golpe na Constituição. Uma ou outra matéria crítica para fazer de conta, mas nenhum protesto mais sério. Por que se colocariam contra? O tribunal deu à "imprensa" o monopólio da liberdade de expressão no Brasil”.

Leandro Ruschel explicou: “O que está acontecendo no Brasil é a criminalização do conservadorismo. É o fim da liberdade de expressão e do Estado Democrático de Direito. Só a esquerda e seus lacaios têm liberdade de expressão e associação”.

Ruschel questionou: “Quanto a extrema-imprensa recebeu em verbas públicas do governo criminoso do PT, para manter a farsa do "governo popular" de pé? Sem contar os blogs chapa-branca, que recebiam verba diretamente da Secom. Foram bilhões! Como disse o Emílio Odebrecht, a imprensa sempre soube. Não foi só do PT. Foi de Temer, FHC, de Itamar, de Collor, de Sarney e do regime militar…”

O investidor simulou uma manchete imaginária: “Polícia Federal investiga como grupos de mídia lucraram bilhões nos últimos anos com verbas de publicidade superfaturadas." E questionou: “Qual seria a manchete de todos os jornais? DITADURA! PERSEGUIÇÃO POLÍTICA! Mas questionar receita de ads de youtubers é "defender a democracia", claro”.

O jornalista Paulo Figueiredo Filho levou esses questionamentos a um programa na velha imprensa, quando surpreendeu os colegas ao propor uma autocrítica. Paulo Figueiredo Filho disse: “Em primeiro lugar, não é possível que alguém não perceba o ridículo de um jornal fazer uma reportagem sobre “blogueiros” que tinham acesso a informação privilegiada enquanto ele se gaba de ter tido acesso a um inquérito sigiloso. Quer informação mais privilegiada que essa? A diferença entre esses dois tipos de acesso é que o vazamento de informações sigilosas de um processo é crime. Crime corriqueiro no Brasil. O STF, a PGR, a Polícia Federal não vão investigar isso não? Aparentemente, não. Eles preferem apurar os “atos antidemocráticos”. O que foi isso? Foi um povo indo às ruas, pacificamente, se manifestar e expor sua vontade. Mais do que criminalizar as manifestações, esse inquérito sem pé nem cabeça criminaliza a opinião”. 

Ele leu um trecho do relatório apresentado pelo Estadão e questionou quais seriam os critérios para definir que uma opinião é “antidemocrática” ou “extremista”, ou quem deveria ter o poder para estabelecer os limites da expressão. Em seguida, questionou: “o que está sendo criminalizado?”. Figueiredo mostrou que não há qualquer diferença entre os que são chamados pejorativamente de “blogueiros” e os jornalistas dos veículos da velha imprensa. E fez uma pergunta aos ouvintes: “quem tem mentido mais? Os blogueiros ou os jornalistas?”. Ele lembrou que os veículos e jornalistas também são remunerados pelo trabalho de buscar informações, e lembrou ainda que, durante a era PT, os blogs favoráveis à extrema-esquerda eram fartamente abastecidos com verbas públicas sem que isso jamais tivesse sido questionado pela velha imprensa. 

Figueiredo prosseguiu: “Esse inquérito é uma vergonha para o Brasil. É inconstitucional, ilegal e imoral. É um ótimo exemplo do uso da burocracia não eleita para perseguição política. O objetivo aqui é claro: criminalizar a opinião contrária, calar os apoiadores do presidente Bolsonaro nas redes sociais, e abafar os movimentos de rua que deram suporte ao presidente. Deram e voltarão a dar depois do Covid, só aguardar. Eu não conheço nada mais antidemocrático do que isso. Nada mais antidemocrático do que isso”.

A fala de Paulo Figueiredo Filho causou uma reação vigorosa da colega Thaís Oyama, que tentou calá-lo, afirmando que não poderia haver comparação entre os jornalistas “de carteirinha” e os chamados “blogueiros”. Figueiredo respondeu: “a diferença entre esses blogueiros e os jornalistas é que os jornalistas estão fazendo fanfic. Tem gente que faz, o dia inteiro. Escreve ficção”. 

Ele prosseguiu, apesar das interrupções: “Você diz que tem alguma coisa de ilegal, porque eles estão ganhando dinheiro. Sabe quem paga o dinheiro dos blogueiros? O povo. O povo que resolve assistir os vídeos no Youtube. Ninguém obriga não. E sabe por que o povo assiste? Porque o trabalho que nós jornalistas temos feito é tão ruim que o povo prefere assistir um vídeo tosco de um blogueiro do que muitas vezes assistir a um programa de televisão. Não dá pra fazer uma autocrítica, não? Que tal parar para pensar: será que a população está se sentindo representada?”. E acrescentou: “O jornalismo profissional morreu. O jornalismo profissional é uma porcaria. Virou uma máquina de militância de esquerda”. 

Paulo Figueiredo Filho disse ainda: “Está faltando autocrítica para os jornalistas. As pessoas decidem o conteúdo que elas querem assistir. Eu sempre digo isso: cada um é senhor de si. Não tem dinheiro público indo para esses blogueiros. Não tem crime. Eu desafio: qual é o Crime no código Penal? Qual é o artigo? Não sabe, né? Sabe por que não sabe? Porque não existe”. 

A fala de Paulo Figueiredo Filho provocou reações entre outros membros da velha imprensa, que saíram em defesa de Thaís Oyama. A jornalista Vera Magalhães considerou o jornalista “desrespeitoso” e o chamou de “embuste”. O escritor Flávio Gordon comentou a reação de Vera Magalhães, dizendo: “A Rainha de Copas já pegou sua faquinha de plástico para tentar cortar a cabeça do Paulo Figueiredo Filho. Afinal, ela só permite dar voz aos que pertencem à Quadrilha (no sentido drummontiano do termo): Vera amava Andrea, que amava Miriam, que amava Josias, que amava Vera…”. Ele mencionou ainda o tweet de outro jornalista e comentou: “Deixando de lado o português capenga, o fato é que a turma do clubinho está sofrendo muito com a dura realidade. Antes da internet, vivia num reino encantado e protegido, uma Combray midiática de corporativismo e autobajulação que, hoje, se ressente por não ser mais venerada”. E acrescentou: “Há, na moribunda imprensa, gente com uma autoimagem tão hiper-inflacionada, que acredita poder destruir uma reputação com um simples piparote, com o poder avassalador de uma carinha de nojo e um “Afe!”.  Está bem divertido…”

O escritor Flávio Gordon compartilhou ainda a reação de um internauta, Chicão, que explicou sua visão da situação: 

O discurso da Thaís Oyama na Jovem Pan contra "blogueiros" que "ganham dinheiro" por conta de informações que recebem do governo é uma das coisas mais repugnantes e imorais que eu vi nos últimos dias. A jornalista, na prática, está condenando a democratização da comunicação.

Ora, um jornalista de uma grande emissora (ou até de uma pequena), ganha dinheiro por conta das informações que recebe. Sejam elas de fontes oficiais ou não. Não existe jornalismo sem fonte. É crime alguém do governo passar alguma informação pra Andréia Sadi? Não, né? Por que então a jornalista Thaís Oyama se refere aos produtores de conteúdo com fontes do governo como se eles fossem criminosos por, indiretamente, serem remunerados pelo trabalho que fazem ao transmitir informação ao público? A lógica da japonesa é igual a do Sleeping Giants.

Condenar produtores de conteúdo independentes que ganham dinheiro através da audiência voluntária do público é infantil e covarde.  É a mídia institucional falida esperneando contra a tecnologia e as múltiplas formas de se transmitir a informação de forma independente.


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