segunda-feira, 10 de maio de 2021

‘Quem diz que o sistema é bom nunca chegou perto dele o suficiente’, diz especialista sobre voto eletrônico


O especialista Augusto Marcacini, do Comitê Multidisciplinar Independente (CMind), participou da live promovida pela deputada Bia Kicis, sobre o voto impresso auditável. Marcacini explicou que estuda o tema há mais de 20 anos e iniciou sua exposição dizendo exatamente que considera inacreditável que, depois de 20 anos, esteja dizendo as mesmas coisas, pois as propostas de mudanças não avançam. Já houve três leis aprovadas pelo Congresso para instituir um sistema de votação que permita auditoria, mas todas foram barradas pelo Supremo Tribunal Federal. 

Pelas redes sociais, o especialista explicou: 

Meus caros, como bem sabem os mais próximos, neste ano completam DUAS DÉCADAS que me envolvi com a discussão sobre o voto eletrônico no país, mais precisamente quando ainda era Vice-Presidente na Comissão de Informática da OAB-SP, então presidida pelo colega e amigo Marcos da Costa. O meu primeiro contato com a questão ocorreu quando fizemos, em 2001, um debate sobre a então recém ocorrida violação do painel eletrônico de votações do Senado. Depois desse evento outros debates foram organizados pela Comissão, participei diversas vezes das "auditorias" promovidas pelo TSE, conheci várias pessoas muitíssimo qualificadas em TI que faziam severas críticas ao modelo brasileiro, quando então, depois de alguma pesquisa de minha parte sobre o que acontece no resto do mundo, cheguei finalmente à conclusão de que nosso modelo não é nada bom, apesar do que estridentemente sustentam as versões oficiais. Em poucas palavras, não há como fazer uma eleição secreta e publicamente auditável de modo 100% eletrônico. Há um problema conceitual que impede que as três coisas ocorram ao mesmo tempo. Para ser auditável e 100% eletrônica, a eleição não pode ser secreta. Se for secreta e 100% eletrônica, não é auditável publicamente (é o que temos no Brasil, embora pairem razoáveis dúvidas sobre o quanto ela seja realmente secreta). Para ser secreta e auditável publicamente, dois requisitos indispensáveis a uma eleição democrática, não pode ser 100% eletrônica, é necessário usar alguma forma de trilha física de auditoria.

Em 2009, passei a integrar o então criado CMIND - Comitê Multidisciplinar Independente, um grupo totalmente informal que reuniu pessoas que já haviam participado dos "testes" de segurança feitos pela Justiça Eleitoral, com o objetivo de apresentar propostas de melhoria de nosso sistema eletrônico de votação. Como curiosidade, em 2009, o CMIND era formado por praticamente TODAS as pessoas externas à Justiça Eleitoral que haviam participado dos testes. Talvez possamos atribuir esse fenômeno ao fato de que, quem viu de perto, não gostou do que viu. É frequente observarmos que quem diz que o sistema é bom nunca chegou perto dele o suficiente, exceto quando, como eleitor, digitou seu voto. 

A deputada Bia Kicis apresentou uma PEC pela impressão do voto e, por isso, vem organizando debates públicos sobre o tema em "lives" nas redes sociais, dos quais já participaram outros membros do CMIND, como Amílcar, Clóvis Fernandes, Oswaldo Maneschy e, nessa qualidade de membro do CMIND, fui convidado para participar do debate desta noite. 

Veja a exposição inicial de Augusto Marcacini na superlive da deputada Bia Kicis.


Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário :

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...